Pois ter essa vida baseada em ser ou não magra, projetar assim toda sua felicidade nesta questão. Tudo bem pensar assim quando a doença começou, aos 12 anos, mas agora com 24, poxa vida, até quando?
Estou tão cansada, estou aqui escrevendo com o estomago lotado de pipoca e pão! Um dia não faria mal, comer uma pipoquinha e fugir da rotina. ROTINA. A minha rotina é totalmente reversa à de uma pessoa normal, portanto meus questionamentos em relação a isto. Comer pipoca TODOS os dias, de forma compulsiva, vomitar, engordar, tomar remédios, deprimir, fingir sorrir, gastar o tempo me maquiando, gastando o dinheiro dos meus pais.
Por isso as vezes penso que dormindo o mundo é melhor, quero dizer, se eu dormir as pessoas esquecem que eu existo, meus pais não vão mais me criticar e eu não terei de comer. Quero mesmo melhorar, mas confesso que do jeito que sou isto nunca vai acontecer, pois sou uma pessoa que não toma atitude, não tenho animo para a vida. Sim, você está a ler uma depressiva escrever.
Tentei gravar uns vídeos e não consegui, minha aparência depressiva estava na cara, por mais bem feita que minha maquiagem estivesse, não conseguiu tapar a tristeza que estava nos meus olhos.
Sinto que todos ao meu redor sabem que sou depressiva, ou melhor, estou depressiva, e me acham frágil, fingem gostar de mim, me dizem que sou bela, que me maquio bem. Sinto que o mundo esta ali só esperando eu cortar os pulsos para ficar comprovado que sou deprimente. Nota-se que a palavra usada foi deprimente, sou deprimente!
Eu simplesmente não tenho forças e não estou preparada para mudar, não consigo fazer coisas simples, ajudar meus pais e eles estão desistindo de mim, assim como eu mesma desisti a um tempo. Faz tempo que não consigo manter uma dieta regrada, ou ao menos comer como pessoa normal, não estabeleço metas, tive comigo que estou ficando velha e com isso perdendo tudo o que há de bom em mim. Acho que a cada dia que passa meus neuronios se perdem com os remédios que eu tomo, penso que minha saúde não tem tanta vivacidade. Não sou frágil, talvez eu seja fraca.
As vezes queria que as pessoas entendessem que existem dois tipos de pessoas, as fracas e as fortes, ou melhor, dois momentos, da força e da fraqueza, e respeitar isso. Todos passam por cima dos sentimentos e apenas nos estereotipam.
Já não posso dizer que sou somente uma pessoa que sofre de bulimia, pois ela trouxe comigo a melancolia diária, meus altos e baixos, meu maior peso e o menor também, tomar laxantes e diuréticos como se fossem placebo. Enfim, a bulimia foi apenas o start, hoje sou uma pessoa cheia de coisas, abarrotadas, em nós, estes que não consigo desfazê-los, acho que para o meu caso teria de inventar um novo nome de transtorno.
Sabe, meus pais pensam que é somente preguiça, mas não é isso, eu JURO por Deus que não é, juro pela minha avó, é como se algo maior, muito maior que eu não deixasse eu sair do lugar ou não fazer o que tenho que fazer, é como se meu mundo fosse acabar, é um sentimento horrível!
Minha capa de invisibilidade é a maquiagem, acho que me aperfeiçoei nesta arte, eu realmente amo fazer maquiagem, conheço muito bem o meu rosto e sei como contorna-lo para ficar como eu quero, e é assim que eu gosto que as pessoas pensem que eu sou, bonita e feliz, já que magra não posso ser.
Sabe, acho que falar de magreza não é o x da questão, não passa nem perto, acho que é apenas um assunto que ficou no passado mas minha cabeça ainda pensa que tem a ver. Os tempos passaram e o que eu mais quero hoje é ser feliz, manter meu humor no estado bom o dia inteiro. Conseguir falar bom dia, mas aquele bom dia para que a pessoa se sinta amada e querida e a partir dali começar realmente o dia. Conseguir olhar nos olhos das pessoas enquanto estou conversando. Não ter medo de expor minhas ideias por acha-las fracas ou sem cabimento, queria mostrar mais meu sorriso, mas não estou encontrando razões para sorrir.
Digo, eu encontro razões para agradecer a minha vida, agradeço a Deus pela minha família, que é excepcional, agradeço minha condição de ser humano, agradeço a educação que tive e a vida que meus pais me proporcionaram até agora. Acho que o erro está somente em mim, e eu não sei como conserta-lo, estou um pouco cansada de ir a psciologos, psiquiatras, nutricionistas e não adiantar em nada, porque não tenho força de vontade, vegeto.
Não sei se é bom eu idolatrar a Marilyn Monroe, mas me identifico tanto com os dramas pessoais dela, com as crises para dormir e outras sobre questionamentos existenciais. Aprecio acima de tudo o dom que ela possuia de atuar, de ser simpática e querida, tratar bem todo mundo, socialmente, enquanto por dentro havia solidão, sempre sozinha, como ela mesma dizia. Se olhar bem as fotos de Norma Jeane perceberá que o olhar dela é triste, na maioria deles, mas confesso que diante das cameras ela consegue ludibriar este fato com muita sabedoria. Era isso que eu queria saber fazer, pelo menos isso. Mas estou preferindo ser feliz e não fingir, ou seja, ser feliz na frente e atras das câmeras.
Rezo para que esse dia não se tarde. Amo vocês, todos.
Beijos, Polly.


















